Da primeira desova em laboratório aos dias de hoje: a história do Coral Vivo contada pelos corais


05/11/2026


Todo mês de outubro, o aniversário do Projeto Coral Vivo e a desova dos corais
acontecem em perfeita sintonia e isso não é coincidência. Em 11 de outubro de 2004, num
pequeno laboratório improvisado em Porto Seguro (BA), a equipe do projeto obteve um
marco inédito: observou, pela primeira vez no Brasil, a desova de corais em cativeiro,
realizando a fecundação de gametas e acompanhando o desenvolvimento dos embriões.

 

O momento foi tão marcante que se tornou o marco zero institucional. O Coral Vivo
comemora seu aniversário tomando como referência o dia 11 de outubro de 2003, ano em
que começou a ser implantado.

 

Um projeto nascido para "descobrir o nascimento"

 

A desova está na própria essência do projeto. 
 

“Foi justamente a possibilidade de descobrir os dias e horários de nascimento
das espécies, com o objetivo de buscar recuperar os recifes e perpetuá-los, que
motivou a criação do Projeto Coral Vivo”, conta Débora Pires, fundadora do projeto.  
 

Elaborado em maio de 2003 a partir de pesquisas do Laboratório de Celenterologia
do Museu Nacional/UFRJ e aprovado pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA) em
outubro do mesmo ano, o projeto tinha um desafio central: fechar o ciclo reprodutivo dos
corais em laboratório.  
 

A meta era observar as desovas, realizar a fecundação in vitro, acompanhar o
desenvolvimento das larvas e obter recrutas, os corais jovens que se fixam no recife, para
testar o potencial de restauração das comunidades recifais no ambiente natural. 

 

Noites de espera, celofane vermelho e mosquitoso"

 

O caminho até o sucesso exigiu paciência e dedicação. Em abril de 2004, a equipe
montou um sistema de aquários em uma edícula da Pousada Bahia Tropical, em Porto
Seguro, cedida por Paolo Botticelli. Projetado por Robson Aragão e executado por Emiliano
Calderon, o espaço recebeu a primeira tentativa com o coral-cérebro (Mussismilia hispida).
Esperava-se a desova entre abril e maio, mas ela não veio. 
 

 

Débora se lembra das noites em claro na praia, vigiando baldes com colônias de
coral iluminadas apenas por uma lanterna envolta em papel celofane vermelho — para que
a luz branca não interferisse no fenômeno. Com receio da escuridão, ela caminhava dez
minutos para o norte, voltava para checar as colônias, e caminhava dez minutos para o sul,
num ritual que durou semanas. Junto com a pesquisadora Bárbara Segal, passou o mês
inteiro em vigilância. A análise das gônadas no laboratório revelou mais tarde que o
processo ainda levaria meses. 

A noite mágica: 11 de outubro de 2004"

 

A virada veio com o coral-couve-flor (Mussismilia harttii), cuja desova estava
prevista para outubro. Desta vez, o monitoramento ocorreu diretamente nos aquários. 
Na noite de 11 de outubro de 2004, sob o som de Paralamas do Sucesso tocando ao
vivo em uma barraca de praia vizinha, o espetáculo aconteceu. Estavam presentes Débora
Pires, Bárbara Segal, Paolo Botticelli, Fábio Negrão e o cinegrafista Kenji Yamakoshi. 
Os dias seguintes foram intensos. Débora e Bárbara acompanharam cada etapa da
fecundação e do desenvolvimento larval em um laboratório sem ar-condicionado e repleto
de mosquitos. As duas se revezavam: enquanto uma se concentrava ao microscópio, a outra
afastava os insetos.
 
 

Conexão a 1.500 km de distância"

 

Na mesma noite, Débora entrou em contato com o pesquisador Mauro Maida, da
UFPE, para que combinassem a coleta de colônias em Tamandaré (PE). Na noite seguinte,
ambos os grupos testemunharam a desova simultânea da mesma espécie, separados por
mais de 1.500 quilômetros. 
“Foi incrível a sincronia da desova da espécie Mussismilia harttii em Porto
Seguro e em Tamandaré, na mesma hora”, relata Mauro. 

Entenda a desova dos corais"

 

Os corais-cérebro do gênero Mussismilia (endêmicos do Brasil) liberam pela
boca pacotes contendo uma mistura de gametas masculinos e femininos. Já o
coral-casca-de-jaca (Montastraea cavernosa) possui colônias com sexos
separados (macho e fêmea) e realiza uma desova "explosiva", onde todos os
pólipos expulsam os gametas simultaneamente em questão de segundos — um
fenômeno sincronizado com as fases da lua.  
 

Mais de duas décadas de avanços em reprodução e conservação"

 

Desde 2005, na Base de Pesquisas no Arraial d’Ajuda Eco Parque, o Coral Vivo
aprofundou o conhecimento sobre as espécies brasileiras. Foram realizados
avanços significativos na fecundação in vitro, testes com placas de
assentamento para recrutas, dezenas de teses acadêmicas e a produção dos
documentários Vida nos Recifes e O Homem e os Recifes. Além da ciência, os
viveiros abertos à visitação permitiram sensibilizar centenas de milhares de
pessoas sobre a importância da preservação marinha.  

 

A desova de 2026: continuidade da pesquisa"

 

Kely Salvi, pesquisadora e analista ambiental do Coral Vivo, conta um pouco sobre
como está sendo esse processo no ano de 2026: 
“A desova de M. harttii em 2026 ocorreu em dois períodos: de 7 a 12 de setembro e de
9 a 16 de outubro. Embora a quantidade de desovas observadas tenha sido inferior à
esperada, conseguimos testar novos protocolos e aprimorar o sistema de produção de
recrutas. Seguiremos monitorando a espécie em novembro e, posteriormente, M. braziliensis,
dando continuidade ao aprimoramento dos processos. A equipe segue esperançosa e
animada com cada resultado!”  
 
 

O futuro dos recifes através da ciência"

 
“A regeneração recifal é um campo complexo e, muitas vezes, controverso. Existem
inúmeras iniciativas, com diferentes abordagens, porém devem ser tratadas com muita
cautela e responsabilidade. Caso contrário as consequências podem ser opostas aos
objetivos iniciais. A iniciativa de regeneração do Coral Vivo, visa potencializar processos que
ocorrem naturalmente no ambiente, favorecendo as trocas gênicas e respeitando a
dinâmica do ecossistema. Por meio do enriquecimento larval, buscamos aumentar as
chances de sobrevivência das larvas, adotando cuidados específicos durante esse período
mais vulnerável da vida do coral. A importância disso é justamente desenvolver um
protocolo de restauração com um baixo impacto no ambiente, onde se devolve mais do que
tira. Os resultados talvez sejam sentidos apenas nas próximas gerações, mas temos 
confiança no processo e acreditamos no potencial! ”, continua Kely, enfatizando a
importância da pesquisa para o futuro dos recifes. 

Da primeira e improvisada desova acompanhada em 2004 até as conduzidas hoje, o
Coral Vivo mantém o mesmo fascínio pelo nascimento dos corais. Mais do que comemorar
23 anos de história, celebrar esta data é renovar o compromisso com o futuro dos recifes de
coral brasileiros : o mesmo espetáculo natural que deu origem ao projeto continua a guiar a
ciência que os protege.
 

Sobre o Projeto Coral Vivo

 

O Projeto Coral Vivo integra o Instituto Coral Vivo, OSCIP referência nacional na conservação de ambientes costeiros e marinhos no Brasil, incluindo recifes de coral, restingas e manguezais. Criado em 2003 no Museu Nacional/UFRJ, o projeto nasce da experiência acumulada de seus pesquisadores, com mais de 40 anos de atuação na área. Patrocinado pela Petrobras desde 2006, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, desenvolve ações integradas de pesquisa científica, educação, políticas públicas, comunicação e mobilização social voltadas à proteção dos ecossistemas coralíneos. Conta ainda com o copatrocínio do Arraial d’Ajuda Eco Parque e parcerias com diversas universidades e instituições de pesquisa no país. O Projeto Coral Vivo integra a Rede Biomar e a REDAGUA, iniciativas colaborativas voltadas à conservação da biodiversidade marinha e à proteção de ecossistemas costeiros.

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