Pesquisa apresenta a análise mais completa já feita sobre o quarto evento global de branqueamento no país, revelando vulnerabilidade extrema no Nordeste e maior resistência no Sul

Entre janeiro e junho de 2024, os recifes de coral de todo o mundo enfrentaram o quarto evento global de branqueamento — situação em que os corais perdem suas algas simbióticas devido ao calor extremo, podendo morrer em seguida. Pela primeira vez, o Brasil contou com um monitoramento padronizado em escala nacional, coordenado pelo Instituto Coral Vivo e o Projeto Coral Vivo, patrocinado pela Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental. Este programa contou com a parceria do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e 20 instituições de pesquisa nacionais e estrangeiras. Os resultados são alarmantes: em Maragogi, Alagoas, até 96% dos corais branquearam e 88% morreram, enquanto regiões mais ao sul, como Rio de Janeiro e São Paulo, resistiram sem registrar mortalidade. Ao todo, 36% dos corais avaliados ao longo da costa apresentaram branqueamento. O estudo, publicado na renomada revista científica internacional Coral Reefs, acompanhou 18 recifes distribuídos por nove estados, do Ceará a Santa Catarina, cobrindo mais de quatro mil quilômetros de litoral e de áreas oceânicas. O artigo representa o esforço de pesquisadores do Programa Nacional Integrado de Monitoramento de Branqueamento, criado em 2021 após o grave episódio de 2019, quando os corais brasileiros sofreram intensa mortalidade, sem que houvesse um acompanhamento sistemático. “Sabíamos que o Brasil inevitavelmente enfrentaria outro grande episódio de branqueamento. Por isso, nos preparamos e montamos um programa nacional de monitoramento. Desta vez, quando o calor chegou, estávamos prontos para registrar os impactos em tempo real”, explica Miguel Mies, coordenador de pesquisa do Projeto Coral Vivo.
Os dados confirmaram que o estresse térmico foi intenso e prolongado. Em Caucaia, no Ceará, os recifes ficaram 147 dias sob anomalias, acumulando 21,3 °C-semanas de calor — um dos valores mais altos já registrados no Atlântico Sudoeste. No Rio Grande do Norte, Pernambuco e Alagoas, as marcas ultrapassaram 20 °C-semanas e a duração chegou a mais de quatro meses. Em contraste, no Rio de Janeiro e em São Paulo, o estresse não passou de dois meses e apresentou anomalias térmicas mais baixas. Em média, os recifes monitorados permaneceram 88 dias sob calor excessivo.
Essa diferença explica a variação nos impactos. O norte da costa, especialmente a Costa dos Corais — maior Unidade de Conservação costeira do Brasil, que se estende de Pernambuco a Alagoas — foi o setor mais vulnerável, com mortalidade em massa. Bahia e a costa central registraram efeitos intermediários. Já no sudeste e sul, apesar do calor, não houve perda de cobertura de corais (mapa abaixo). “O resultado do estudo confirma que o norte do nordeste foi a área mais sensível, enquanto o sudeste e sul apresentaram maior tolerância. Mas não se trata de boas notícias — o que vimos no Nordeste é um colapso, e no Sul a diversidade já é naturalmente muito baixa”, alerta o pesquisador.
As espécies que mais sofreram foram justamente aquelas que dão tridimensionalidade aos recifes, servindo de abrigo e local de reprodução para inúmeras outras espécies. Entre elas, o coral-de-fogo (Millepora alcicornis) perdeu 54% de sua cobertura, e o coral-vela (Mussismilia harttii), endêmico e ameaçado, sofreu queda de 28%. Esse padrão repete o observado no evento regional de 2019–20, reforçando que essas espécies continuam sendo as mais vulneráveis ao aquecimento. “Perder essas espécies significa reduzir a complexidade dos recifes. Menos estrutura quer dizer menos diversidade, e isso se traduz em menos pescado e menos renda para comunidades costeiras que dependem desses ambientes”, destaca Miguel.
As consequências vão além da mortalidade coralínea. O estudo mostra mudanças na comunidade bentônica: as algas filamentosas (turf) permaneceram estáveis, representando cerca de 60% da cobertura; as macroalgas frondosas diminuíram 31%; e as algas calcárias incrustantes aumentaram 22%, colonizando os esqueletos mortos de corais. Essa alteração no equilíbrio ecológico pode comprometer o recrutamento de novos corais e afetar a dinâmica dos recifes a longo prazo.
Os resultados confirmam uma tendência já apontada em outras pesquisas da Rede Coral Vivo, incluindo estudo liderado por Giovanna Destri e publicado na Global Change Biology, que demonstrou o aumento progressivo da intensidade e da duração dos episódios de calor nos recifes brasileiros. “Os dados reafirmam que as mudanças climáticas estão avançando de forma cada vez mais rápida. O nordeste continua se degradando, e o sudeste pode até resistir por mais tempo, mas tem uma diversidade coralínea muito menor. Não haverá tempo para espécies do nordeste colonizarem o sudeste. O cenário é preocupante”, afirma.
A mensagem dos pesquisadores é clara: é urgente agir contra a crise climática. “Precisamos combater o aumento da concentração de CO2 na atmosfera e fortalecer nossas Unidades de Conservação. Projetos como o Coral Vivo têm o papel fundamental de informar a sociedade de que os serviços ecossistêmicos que os recifes oferecem — como pesca, turismo e proteção costeira — estão em risco. Não é só a biodiversidade que está em jogo, é também a renda e o emprego de muitas famílias brasileiras”, conclui o pesquisador.
Sobre o Coral Vivo
Patrocinado pela Petrobras desde 2006, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, o Projeto Coral Vivo trabalha com pesquisa, educação, políticas públicas, comunicação e sensibilização para a conservação e a sustentabilidade socioambiental dos ambientes recifais e coralíneos do Brasil. Concebido no Museu Nacional/UFRJ, é realizado pelo Instituto Coral Vivo em parceria com 15 universidades e institutos de pesquisa.
As ações do Projeto Coral Vivo são viabilizadas também pelo copatrocínio do Arraial d’Ajuda Eco Parque.
O Projeto Coral Vivo integra a Rede BIOMAR, junto com os projetos Albatroz, Baleia Jubarte, Golfinho Rotador e Meros do Brasil. Patrocinados pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, eles atuam de forma complementar na conservação da biodiversidade marinha do Brasil. O Coral Vivo faz parte também da Rede de Conservação das Águas da Guanabara e Entorno (REDAGUA), que reúne, igualmente, todos projetos apoiados pela Petrobras. A rede tem como objetivo promover a conservação da biodiversidade, prestação de serviços ecossistêmicos, restauração ambiental, pesquisa, educação ambiental, inclusão social e comunicação na região da Baía de Guanabara e entorno, sendo constituída pelos Projetos Aruanã, Coral Vivo, Guapiaçu, Meros do Brasil e Uçá.