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El Niño ameaça saúde dos corais da costa brasileira

30 de abril de 2016

O aquecimento anormal da temperatura do oceano causado pelo El Niño já começa a interferir na saúde dos corais do Brasil. Cálculos do NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, na sigla em inglês), órgão do governo americano, preveem temperatura de 0,5ºC acima da média histórica no Sul da Bahia até junho. “Para avaliar o impacto no Parque Natural Municipal do Recife de Fora (BA), estamos realizando dois monitoramentos simultâneos para interpretar os dados de maneira conjunta”, explica o biólogo Emiliano Calderon, coordenador de Pesquisas do Projeto Coral Vivo, que é patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

Colônia de coral com branqueamento no Recife de Fora | Foto: Emiliano Calderon/Projeto Coral Vivo

Colônia de coral com branqueamento no Recife de Fora | Foto: Emiliano Calderon/Projeto Coral Vivo

A Rede de Pesquisas Coral Vivo realiza desde dezembro estudos científicos em três pontos do Recife de Fora para conhecer a resposta fisiológica das espécies, com a participação de diferentes institutos e universidades públicas. Ao mesmo tempo, outra equipe do Coral Vivo contribui com a coleta de dados para o Programa Reef Check Brasil, que é um protocolo internacional, aperfeiçoado para as condições dos recifes brasileiros, realizado anualmente para monitorar a saúde dos recifes de coral.

Colônias branqueadas no Recife de Fora
Os pesquisadores da Rede de Pesquisas Coral Vivo tem mergulhado quinzenalmente em três pontos do Recife de Fora: Funil, Mourão e Taquaruçu. No estudo de campo realizado na segunda quinzena de abril, o ponto Taquaruçu era o mais afetado com grandes colônias de corais completamente branqueadas, como os corais-de-fogo Millepora alcicornis eMillepora nitida e o coral Mussismilia harttii. “Algumas colônias do coral Mussismilia hispida também estão completamente brancas, e as demais, no geral, ainda apresentam coloração normal”, avalia Calderon.

“Além de verificar se as colônias de coral estão com branqueamento, estamos coletando amostras para análises de microbiologia e de biomarcadores enzimáticos”, explica o pesquisador Emiliano Calderon. Para completar, a cada 15 minutos equipamentos instalados no mar medem e registram a temperatura da água e guardam na memória eletrônica. Simultaneamente, na base de pesquisas, um equipamento mede a incidência da luz solar. Calderon explica que ambos parâmetros, o aumento da temperatura e a forte luz solar, estão relacionados à ocorrência do fenômeno de branqueamento. O encerramento desses estudos está previsto para maio ou até final do El Niño, quando os dados serão baixados e analisados.

Será verificado também se o branqueamento teve alguma interferência de poluentes como cobre e carbono, por exemplo, que podem potencializar o fenômeno. “O branqueamento ocorre por um somatório de fatores. Medindo esses parâmetros podemos ter mais certeza sobre o que desencadeou o problema em cada ponto”, explica Calderon.

No Brasil, as colônias costumam ter um índice de branqueamento menor do que no Pacífico, que tem águas mais claras. Em alguns eventos anteriores menos de 20% dos corais de alguns locais da costa brasileira foram acometidos enquanto no Caribe ou na Austrália chegam a mais de 80% de colônias com branqueamento. Alguns estudos apontam que, como os recifes de coral do Brasil ficam em águas mais turvas, esse ambiente mais escuro poderia funcionar como um filtro solar, sendo uma das explicações de por que os corais que ocorrem no Brasil são menos afetados pelo estresse causado pelo El Niño.

Dados do NOAA indicam área crítica no Sul de Abrolhos
As previsões dos mapas recentes gerados pelo NOAA indicam que a região ao Sul do Banco dos Abrolhos é a que mais pode sofrer com branqueamento. “Caso a pluma do Rio Doce atinja essa região neste período de El Niño, os corais já fragilizados pelo aquecimento terão mais dificuldades para se recuperar e podem não resistir”, avalia o geólogo José Carlos Seoane, membro da Rede de Pesquisas Coral Vivo e professor do Instituto de Geociências da UFRJ. “A previsão de branqueamento, que gera o alerta, é feita a partir da temperatura da superfície da água do mar, comparada à média da temperatura esperada para cada dia do ano, chamada de “climatologia”. Leva também em conta quantos dias a temperatura está acima do normal, e se a água está circulando ou parada (pela medição dos ventos)”, informa Seoane. Ele explica que todos os locais na costa brasileira com boias virtuais do NOAA estão amarelos no sistema, e isso significa estado de monitoramento. A previsão é que até junho, com até 90% de certeza, a temperatura fique 0,5ºC acima da média histórica para a data na Costa dos Corais, no Recife de Fora, em Abrolhos e em Búzios.

Reef Check no Recife de Fora (BA)
Desde 2005, cinco pontos do Recife de Fora são monitorados pelo Programa de Monitoramento dos Recifes de Coral do Brasil, e o Projeto Coral Vivo sempre contribui, assim como ocorreu em abril deste ano. Mais conhecido como Reef Check Brasil, ele é o maior programa internacional de monitoramento de recifes de coral envolvendo mergulhadores recreacionais e cientistas marinhos. O líder da campanha no Recife de Fora é o coordenador regional do Reef Check na Bahia e Secretário de Meio Ambiente da Prefeitura de Caravelas (BA), Fábio Negrão. Em pranchetas, os participantes fazem anotações sobre a saúde dos recifes de coral e os dados são tabulados e monitorados anualmente. Das espécies de corais que ocorrem nos recifes rasos brasileiros, dez foram encontradas com branqueamento nos cinco pontos do Reef Check no Recife de Fora em 2016: Agaricia agaricites, Millepora alcicornis, Millepora nitida, Montastraea cavernosa, Mussismilia braziliensis, Mussismilia harttii, Mussismilia hispida, Porites astreoides, Porites branneri, Siderastrea stellata. O Reef Check é realizado pelo ICMBio/MMA, com a coordenação técnica do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco, e conta com uma série de parceiros.

Branqueamento de corais
O branqueamento acontece quando as microalgas simbiontes – chamadas de zooxantelas e que dão cor ao tecido quase transparente do coral – são expulsas por conta de estresses como aquecimento, acidificação da água ou poluição. Assim, o esqueleto calcário fica visível atrás do tecido quase transparente. “Quanto mais intenso e duradouro for o evento estressante, maior é a chance da colônia de coral adoecer e morrer”, explica o coordenador geral do Projeto Coral Vivo e professor do Museu Nacional/UFRJ, o biólogo marinho Clovis Castro.

Sobre o Projeto Coral Vivo
O Projeto Coral Vivo é patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental e trabalha com pesquisa, educação, comunicação e políticas públicas para a conservação e o uso sustentável dos ambientes recifais do Brasil. Ele faz parte da Rede Biomar, junto com os projetos Albatroz, Baleia Jubarte, Golfinho Rotador e Tamar. Todos patrocinados pela Petrobras, eles atuam de forma complementar na conservação da biodiversidade marinha do Brasil, trabalhando nas áreas de proteção e pesquisa das espécies e dos habitats relacionados. As ações do Coral Vivo são viabilizadas também pelo copatrocínio do Arraial d’Ajuda Eco Parque, e realizadas pela Associação Amigos do Museu Nacional (SAMN) e pelo Instituto Coral Vivo (ICV). Mais informações na página www.fb.com/CoralVivo e no sitewww.coralvivo.org.br.

Por Redação do Coral Vivo.