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Coral do Museu Nacional coletado no século XIX ajudará a avaliar tendências das mudanças climáticas nos últimos 200 anos

Uma colônia do coral Montastraea cavernosa, do acervo do Museu Nacional/UFRJ, coletada há cerca de 150 anos, irá ajudar a reconstruir as mudanças climáticas no Atlântico Tropical Sul. O esqueleto calcário de onde foi retirada uma lâmina para o estudo abre a exposição “Expedição Coral: 1865-2018”, no primeiro museu e casa de ciência do Brasil, que acaba de completar 200 anos. A colônia estava na exposição do Museu Nacional desde a década de 1950. Após suspeita do professor e biólogo marinho Clovis Castro de que a coleta foi realizada durante expedição ligada ao naturalista canadense Charles Hartt, entre 1865 e 1876, a peça foi datada por meio de métodos de alta tecnologia nos EUA e o resultado acaba de confirmar isso.

A lâmina de esqueleto está no Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais da Uerj para que o geocientista Heitor Evangelista realize as análises geoquímicas nos próximos meses. “Os corais são testemunhos da variabilidade oceânica. O que era uma peça puramente ilustrativa do Museu Nacional agora é ferramenta para reconstruir entre 60 e 80 anos do Oceano Atlântico no século XIX, e isso é de grande valor e inédito para a ciência no Brasil”, destaca Evangelista, membro da Rede de Pesquisas Coral Vivo. O estudo faz parte das iniciativas dessa rede ligada ao Projeto Coral Vivo, patrocinado pela Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, desde 2006. Ao concluir as análises, ele irá completar os dados obtidos com exemplares coletados recentemente, gerando dois séculos de conhecimento sobre as mudanças climáticas e oceanográficas na costa da Bahia.

Ele explica que, ao longo do tempo, uma colônia vai produzindo por meio do seu metabolismo a estrutura de um exoesqueleto de carbonato de cálcio. Cada camada de crescimento, como se fosse uma espécie de casca de cebola, revela o registro histórico do que aconteceu na coluna d’água, contribuindo para o melhor entendimento dos processos do aquecimento global, entre outros processos. Resumidamente, nos próximos passos, serão realizadas subamostragens milimétricas ao longo do crescimento do esqueleto da colônia de coral. Elas serão enviadas para dois tipos de equipamentos. No primeiro, será medida a composição elementar: cálcio, estrôncio, urânio, magnésio, cádmio e vanádio. Já o espectrômetro de massa irá analisar os isótopos de oxigênio e de carbono. “Essa geoquímica irá informar essa história, entre 60 e 80 anos do século XIX, de como estava a temperatura do mar, a salinidade, o aporte terrígeno e a produtividade primária”, relata Heitor. “Dependendo dos valores de variação dos elementos é possível saber se o oceano estava mais frio, se a água estava mais turva por conta de chuvas, se há o registro de processos cíclicos como o El Niño, por exemplo”, conta Evangelista.

Da suspeita à confirmação pela datação

“Quando eu era estagiário na década de 80, minha supervisora pediu para eu organizar algumas peças, como uns esqueletos de gorgônias que estavam sem identificação ou procedência em gavetas de uma exposição de corais do Museu Nacional”, lembra Clovis Castro, que é professor do Programa de Pós-Graduação em Zoologia do Museu Nacional/UFRJ. Anos depois, no mestrado nos EUA, ele se deparou com peças identificadas e muito semelhantes de expedições realizadas por Charles Hartt no Brasil. “A partir disso, comecei a suspeitar que as colônias de corais que não tinham ainda uma data de coleta e origem pudessem também ser da época das expedições da Comissão Geológica do Império, que Hartt integrava. Isso somente pode ser confirmado agora com os avanços tecnológicos e a parceria com o Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais da Uerj e institutos do exterior”, explica Castro.

Para comprovar a datação, foram enviados fragmentos da colônia de coral para a Universidade de Minnesota, nos EUA, que fez estudos com os elementos radioativos urânio e tório, confirmando que é uma amostra da época das expedições do século XIX. O raio-x feito no Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Uerj, demonstra que a colônia completa possui entre 60 e 80 bandas - ou camadas - de crescimento. Cada camada representa um ano de crescimento do coral.

Os especialistas informam que é importante conhecer as mudanças climáticas de dois séculos atrás no Sul da Bahia porque é uma das regiões de maior biodiversidade marinha do Atlântico Sul e uma das áreas prioritárias do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Ambientes Coralíneos (PAN Corais). Esse documento de pactuação entre diferentes atores institucionais também tem destaque na exposição “Expedição Coral: 1865-2018”, que ficará aberta para visitação até maio de 2019 no Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Além de outras colônias de corais centenários haverá exemplares de espécies ameaçadas que vivem nos recifes, com bordados realizados por artesãs. Faz parte da exposição também telas interativas sobre os efeitos das ações do Homem sobre os ambientes marinhos e outra com informações sobre unidades de conservação recifais e projetos brasileiros que trabalham em sua conservação.

Sobre o Projeto Coral Vivo

O Projeto Coral Vivo é patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental e trabalha com pesquisa, educação, turismo, políticas públicas e sensibilização para a conservação e uso sustentável dos ambientes recifais e coralíneos do Brasil. Concebido no Museu Nacional/UFRJ, hoje é realizado por doze universidades e institutos de pesquisa. Está vinculado ao Instituto Coral Vivo, que é o coordenador executivo do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Ambientes Coralíneos (PAN Corais). Esse documento de pactuação está sendo realizado com a coordenação geral do Cepsul/ICMBio. Além disso, o Projeto integra a Rede Biomar, junto com os projetos Albatroz, Baleia Jubarte, Golfinho Rotador e Tamar. Todos patrocinados pela Petrobras, eles atuam de forma complementar na conservação da biodiversidade marinha do Brasil, trabalhando nas áreas de proteção e pesquisa das espécies e dos habitats relacionados. As ações do Projeto Coral Vivo são viabilizadas também pelo copatrocínio do Arraial d’Ajuda Eco Parque. www.coralvivo.org.br.

SERVIÇO:

Exposição “Expedição Coral: 1865-2018” - Acervo e arte convidam público a conhecer a descoberta dos corais e ambientes coralíneos e seu estado de conservação, desde o Brasil de Pedro II até hoje.

Em exposição: Até maio de 2019.

Dias e horários de funcionamento: De terça a domingo, das 10h às 16h.

Ingresso: R$ 8 (inteira) e R$ 4 (meia) para menores de 21 anos, maiores de 60 anos, estudantes e professores da rede pública. Grátis para crianças com até 5 anos e pessoas com deficiência. Entrada gratuita para todos no segundo domingo de cada mês.

Endereço: Museu Nacional, Quinta da Boa Vista, S/N, São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ.

Contatos: (21) 3938-1123 e www.museunacional.ufrj.br.



Redação: Projeto Coral Vivo.